Apresentação
Discriminações e preconceitos atravessam diferentes áreas da sociedade e, muitas vezes, são tratados de forma simplista, como se fossem todos a mesma coisa. Por isso, há quem acredite que racismo, machismo, capacitismo, transfobia e outras formas de opressão poderiam ser resumidos apenas como “preconceito”.
Essa leitura superficial, porém, desconsidera as diferenças e particularidades de cada forma de discriminação. Entre elas está o capacitismo, tema central deste artigo, uma prática muito presente e ainda pouco discutida. Entendido como discriminação contra pessoas com deficiência, o capacitismo se apoia em estereótipos de inferioridade e em ideias historicamente ligadas à eugenia.
O capacitismo é uma forma de discriminação frequentemente invisibilizada. Ele parte da ideia de que a deficiência deve ser corrigida ou eliminada, em vez de reconhecida como parte da diversidade humana. Esse preconceito impacta diretamente a vida de milhões de pessoas com deficiência, restringe o acesso a direitos básicos e reforça a exclusão social.
Ao longo deste texto, analisarei essa forma de discriminação em profundidade, mostrando como ela se relaciona à criação e à manutenção de estereótipos e preconceitos.
Assim como na física a observação de um fenômeno depende do referencial adotado. A forma como a deficiência e o capacitismo são percebidos também varia conforme os contextos culturais, sociais e históricos.
A falta de compreensão sobre o capacitismo e suas especificidades costuma simplificar o debate, apagando suas raízes históricas e os impactos particulares que ele produz. Este artigo busca desmistificar o capacitismo, nomeá-lo corretamente e analisar suas manifestações e consequências.
Para enfrentar essa discriminação de modo eficaz, não bastam generalizações. É essencial compreender as origens do capacitismo, sua relação com outras formas de discriminação e as medidas necessárias para combatê-lo.
Assim, este texto propõe uma reflexão mais específica e consciente, voltada à valorização da diversidade humana em todas as suas formas.
Observação: Esse texto tem como pré-requisito a leitura de Deficiência: História, Conceito na LBI e Modelos, que oferece uma base para compreender os conceitos discutidos aqui.
Por que usar uma palavra diferente?
Muitas pessoas acreditam que não é necessário usar termos específicos para nomear diferentes formas de preconceito, como machismo, racismo, capacitismo, transfobia, homofobia e lesbofobia. Para elas, tudo poderia ser resumido simplesmente como “preconceito”.
Já o combate a essas violências deveria acontecer de forma unificada, com o objetivo de garantir oportunidades iguais para todas as pessoas. Nessa perspectiva, não faria sentido usar nomes diferentes para cada tipo de discriminação.
Apesar desse argumento ser comum, ele ignora diferenças importantes entre as várias formas de preconceito. É como acontece com as engenharias: civil, de computação, ambiental e outras compartilham uma base comum, mas não podem ser reduzidas simplesmente à palavra “engenharia”. Cada área tem um campo próprio de atuação e produz impactos específicos.
Da mesma maneira, cada forma de discriminação tem origens, características e efeitos próprios. Reduzir tudo ao termo “preconceito” apaga essas diferenças e enfraquece a compreensão das exclusões que atingem as pessoas de modos diferentes.
Por isso, nomear cada forma de discriminação é fundamental para entender como ela se manifesta e para enfrentá-la com mais eficácia. Para entender por que essa nomeação importa, é preciso voltar aos conceitos que sustentam essas categorias.
Antes de tratar especificamente do capacitismo, forma de discriminação contra pessoas com deficiência, convém compreender o que são preconceito, discriminação e estereótipo. Esses conceitos ajudam a explicar por que surgem termos específicos para nomear diferentes manifestações discriminatórias, como observa Joaquim (2006) em seu estudo sobre igualdade e discriminação.
Observação: em telas pequenas, deslize horizontalmente para ler todas as colunas da tabela.
| Palavra | Definição |
|---|---|
| Preconceito | Preconceito é uma ideia ou crença formada antes de conhecer de fato uma pessoa, um grupo ou uma situação. Ele se apoia em generalizações, não em fatos, e muitas vezes nasce de estereótipos. Por isso, distorce a forma como percebemos o mundo e pode levar as pessoas a agir sem questionar essas crenças. |
| Estereótipo | Estereótipos são ideias simplificadas e generalizadas sobre um grupo. Eles reforçam o preconceito porque transformam uma característica específica em uma suposta "verdade" sobre todas as pessoas desse grupo, mantendo visões distorcidas sobre elas. |
| Discriminação | Discriminação é a transformação do preconceito e dos estereótipos em prática. Ela aparece em ações ou omissões que prejudicam pessoas e violam direitos, como impedir alguém de conseguir um emprego por causa de sua cor ou gênero, ou deixar de adaptar espaços para pessoas com deficiência. Essas práticas reforçam e ampliam as desigualdades sociais. |
Preconceito, estereótipos e discriminação formam um ciclo que se reforça continuamente. Para rompê-lo, é preciso combater tanto as práticas discriminatórias visíveis quanto as ideias e crenças que as sustentam.
Exemplos de preconceito, estereótipo e discriminação:
| Tipo | O que é |
|---|---|
| Preconceito | Acreditar, antes de conhecer uma pessoa com deficiência, que ela será menos capaz de estudar, trabalhar ou participar de determinadas atividades. |
| Estereótipo | Afirmar que pessoas com deficiência são sempre frágeis, dependentes ou exemplos de superação, como se todas tivessem a mesma experiência de vida. |
| Discriminação | Deixar de adaptar um site, um edital ou um espaço físico, impedindo que pessoas com deficiência acessem informações, serviços ou oportunidades em igualdade de condições. |
O que diz a lei brasileira?
A legislação brasileira considera a discriminação ilegal e estabelece punições para quem a pratica:
Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a religião ou à condição de pessoa idosa ou com deficiência: Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa.
No caso da deficiência, a Lei Brasileira de Inclusão é ainda mais específica: ela não se limita à injúria e também considera crime a discriminação contra pessoas com deficiência.
Praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência: Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa.
Essas regras deixam claro que discriminar por ação ou omissão viola direitos e resulta de preconceitos sustentados por estereótipos.
Savazzoni (2015) observa que:
A discriminação e o preconceito revelam como a humanidade ainda é limitada em seu entendimento, surgindo da sensação de superioridade de alguns indivíduos sobre outros, apoiada em conceitos econômicos, sociais, religiosos e até distorções científicas.
A discriminação não se restringe ao que a lei reconhece ou pune; ela também nasce de fatores culturais, históricos e sociais. No caso do capacitismo, isso aparece não apenas em violações legais, mas também em estereótipos que limitam, de forma injusta, o que pessoas com deficiência são consideradas capazes de fazer.
Diante da complexidade da discriminação, é importante usar termos específicos para nomear suas diferentes formas. Generalizar esses fenômenos dificulta a compreensão de suas causas, efeitos e particularidades.
Por isso, a diversidade de termos ajuda a reconhecer cada tipo de discriminação com mais precisão e a enfrentá-lo de maneira mais eficaz.
No caso das pessoas com deficiência, o capacitismo é uma das formas de discriminação mais frequentes e ainda pouco compreendidas. Nomeá-lo é fundamental para tornar o problema visível e orientar medidas específicas de enfrentamento.
Embora ações mais amplas contra a discriminação sejam importantes, é preciso reconhecer as particularidades de cada fenômeno para combatê-lo de maneira eficaz.
As relações da eugenia com o capacitismo
A eugenia é uma teoria surgida no século XIX que defendia a suposta “melhoria” da humanidade por meio da seleção de características consideradas desejáveis e da eliminação daquelas vistas como indesejáveis. Essa ideia foi usada para justificar políticas de esterilização forçada, segregação e extermínio de pessoas consideradas “inferiores” pelos defensores dessa teoria.
Embora Francis Galton tenha criado o termo “eugenia” em 1865, ideias e práticas eugenistas existem desde períodos muito antigos. Essa lógica se conecta ao racismo, ao capacitismo, ao sexismo e a outras formas de discriminação, porque parte da crença de que algumas pessoas seriam superiores a outras.
Em relação ao capacitismo, a eugenia representa uma forma extrema de uma sociedade tratar a deficiência como problema a ser eliminado. Historicamente, ela serviu para justificar a esterilização forçada de pessoas com deficiência, sua segregação em instituições e sua exclusão social.
Em vez de promover inclusão e acessibilidade, a lógica eugênica busca afastar ou eliminar essas pessoas da sociedade.
A Alemanha nazista é um dos exemplos mais conhecidos de discriminação eugênica. Com aparência de fundamentação científica, o regime nazista adotou políticas eugenistas, incluindo esterilizações forçadas a partir de 1933, com o objetivo de eliminar características consideradas indesejáveis.
Hitler enxergava as pessoas com deficiência como obstáculos ao seu projeto de sociedade, e assim surgiu o projeto Aktion T4, incorretamente apelidado de 'eutanásia', que de 'morte tranquila' não tinha nada.
Iniciado em 1939, o Aktion T4 visou a eliminação em massa de idosos, pessoas com deficiência e bebês avaliados por equipes médicas. Aqueles considerados 'fracos', segundo essa lógica perversa, recebiam doses letais de drogas ou eram abandonados. Para os nazistas, essas eram 'vidas que não mereciam ser vividas'. O programa, infame, rapidamente se expandiu para outras áreas da sociedade.
O extermínio de pessoas com deficiência ocorreu em campos de concentração disfarçados de clínicas psiquiátricas. Bebês também eram mortos nos próprios hospitais onde nasciam.
A rigor, a primeira câmara de gás foi utilizada contra pacientes de um hospital psiquiátrico no programa nazista denominado 'eutanásia', que matou cerca de 100 mil alemães classificados como 'doentes mentais e incuráveis', incluindo epiléticos, surdos, cegos, pessoas com lábio leporino, além de indivíduos considerados 'associais' e judeus.
Esses trechos mostram como a eugenia sustentou o ideário nazista e levou a discriminação a consequências extremas. Ideias de “inferioridade”, “fraqueza”, “degeneração” e “raça pura” custaram a vida de milhões de pessoas.
Embora muita gente acredite que o pensamento eugenista tenha desaparecido após a Segunda Guerra Mundial, ele ainda persiste. Hoje, discursos com essa lógica aparecem em falas de figuras públicas e acadêmicas que dizem defender a “qualidade de vida da população”.
Um exemplo contemporâneo é o biólogo e escritor Richard Dawkins, que em 2020 expressou opiniões controversas ao defender a eugenia.
Richard Dawkins defende a eugenia em 2020
Antes desse episódio, Richard Dawkins já havia se envolvido em outra polêmica. Em 2014, o biólogo afirmou que seria “imoral” ter um bebê com síndrome de Down.
Para quem deseja ler a matéria completa, acesse: Richard Dawkins diz que ter bebê sabendo que tem Down seria ‘imoral’(abre em nova janela).
Dawkins é conhecido por seus livros, por sua defesa pública do ateísmo e por participar de debates intensos com religiosos. Justamente por ocupar esse lugar de autoridade intelectual e científica, suas falas mostram como é necessário separar a ciência dos cientistas.
A ciência avança pela reprodução de resultados, pela contestação de ideias e pela correção de conceitos equivocados, como ocorreu com a eugenia e a frenologia. Cientistas, por outro lado, são pessoas com opiniões próprias, e essas opiniões não representam a ciência como um todo.
A opinião de um cientista não deve ser tratada como “verdade absoluta”. Quando uma figura influente como Dawkins defende ideias extremas, isso pode dar a aparência de legitimidade científica a discursos preconceituosos. Por isso, é essencial que a sociedade questione essas falas e seus efeitos.
O divulgador científico Emílio Garcia, do canal BlablaLogia no YouTube, analisou as incoerências nos discursos de Dawkins e ressaltou a necessidade de permanecer atento a ideias eugenistas.
Vídeo de Emílio Garcia sobre Richard Dawkins
Resumo do vídeo
No vídeo, Emílio Garcia analisa a publicação de Richard Dawkins sobre eugenia no Twitter/X. Dawkins afirma que, embora a eugenia seja condenável do ponto de vista ideológico, político e moral, não seria correto concluir que ela “não funciona”. Para sustentar esse argumento, ele compara seres humanos a animais e plantas submetidos à seleção artificial, como cavalos, vacas, porcos, cachorros e rosas.
A partir dessa fala, o vídeo apresenta a trajetória de Dawkins como biólogo, etólogo, divulgador científico e autor de obras conhecidas, como “O Gene Egoísta”, “O Relojoeiro Cego” e “Deus, um Delírio”.
Garcia destaca que Dawkins é uma figura influente na divulgação da biologia evolutiva e, justamente por isso, suas declarações públicas precisam ser analisadas com cuidado.
O vídeo também retoma a origem do termo “eugenia”, criado por Francis Galton em 1865, e explica sua relação com a seleção artificial e com interpretações equivocadas da teoria da evolução. Segundo a análise, Galton aplicou aos seres humanos uma lógica usada na criação seletiva de plantas e animais, defendendo a ideia de que características como inteligência seriam hereditárias e poderiam ser estimuladas por cruzamentos seletivos.
Em seguida, Garcia mostra que a eugenia não foi apenas uma teoria abstrata. Ela influenciou políticas adotadas em diferentes países, incluindo esterilizações compulsórias, segregação e extermínio de pessoas consideradas “indesejáveis”. O exemplo mais extremo foi o regime nazista, mas o vídeo lembra que práticas de eugenia negativa continuaram em alguns países europeus até a década de 1970.
Do ponto de vista científico, o vídeo critica a ideia de “melhoria” aplicada à evolução. A seleção natural não busca produzir organismos melhores, mas favorecer adaptações a determinados ambientes.
Além disso, a eugenia reduz a variabilidade genética, justamente um elemento importante para a sobrevivência das populações. Por isso, a comparação feita por Dawkins entre seleção artificial em animais e eugenia humana é apresentada como problemática tanto biologicamente quanto eticamente.
Outro ponto central do vídeo é que a definição do que seria uma característica “melhor” nunca é neutra: ela costuma refletir os valores e interesses de quem ocupa posições de poder. Garcia lembra que, historicamente, a pobreza, a deficiência e outras condições sociais ou corporais foram tratadas como problemas hereditários, ignorando fatores econômicos, culturais e ambientais.
Ao final, o vídeo reforça que a eugenia não faz sentido do ponto de vista genético nem evolutivo e que suas bases históricas, morais e políticas precisam ser consideradas. Independentemente da intenção de Dawkins ao publicar o tweet, a análise de Garcia defende a importância de compreender conceitos científicos para discutir temas delicados de forma crítica, especialmente em um contexto de crescimento de discursos excludentes.
Comentário sobre a defesa da eugenia de Richard Dawkins
As declarações de Richard Dawkins mostram que a eugenia ainda encontra espaço em debates atuais. Ela ainda é apresentada, por algumas pessoas, como uma forma de controle genético voltada a supostas “melhorias”.
A ciência evolutiva não sustenta a eugenia como forma de “melhorar” a humanidade. A seleção natural não busca aperfeiçoar os organismos; ela descreve como eles se adaptam a determinados ambientes.
A eugenia abre caminho para justificar discriminação e opressão, especialmente contra grupos vulnerabilizados, como pessoas com deficiência. Por isso, é necessário manter atenção constante a discursos que tentam recuperar esses ideais.
Ao longo da história, a ideia de “melhorar” a espécie por seleção genética serviu para justificar políticas de controle, exclusão e eliminação de grupos considerados “inferiores”, como pessoas com deficiência, pessoas pretas, pessoas pobres, pessoas LGBTQIA+ e outros grupos vulnerabilizados.
A relação entre eugenia e capacitismo evidencia como a exclusão de pessoas com deficiência já foi defendida como caminho para formar uma sociedade supostamente “melhor”. Ao propor a eliminação da deficiência, a eugenia fortalece o capacitismo, pois trata a deficiência como um problema a ser eliminado, e não como parte da diversidade humana.
Essa crença abre espaço para várias formas de discriminação. A comparação feita por Dawkins entre seres humanos, animais e plantas pode parecer apenas uma provocação teórica, mas ajuda a normalizar a noção de que características vistas como “indesejáveis” poderiam ser eliminadas.
Quando figuras influentes naturalizam discursos eugenistas, ideias perigosas do passado passam a parecer legítimas novamente. Isso reforça preconceitos atuais, como o capacitismo, porque apresenta a diversidade humana como uma falha a ser corrigida, e não como uma realidade a ser respeitada.
Aceitar esse tipo de pensamento pode sustentar práticas e políticas que aprofundam a marginalização de grupos vulnerabilizados.
Por isso, discursos desse tipo precisam ser questionados, especialmente quando vêm de pessoas influentes. Ideias que ameaçam os direitos humanos e a dignidade de qualquer grupo não são meras opiniões: elas representam riscos reais à inclusão e à igualdade.
Para saber mais
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Sobre o PL da esterilização de pessoas com deficiência por decisão judicial
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Holocausto brasileiro: o horror vivido no Hospital Colônia de Barbacena
Afinal, o que é capacitismo?
O termo capacitismo ganhou destaque nos anos 1990, mas passou a ser mais conhecido e debatido a partir dos anos 2000. Atualmente, aparece com mais frequência nas discussões sobre deficiência e discriminação. Para compreender melhor o conceito, serão apresentadas as contribuições de três referências teóricas: Campbell, Wolbring e Goodley.
Campbell foi uma das primeiras referências a analisar a deficiência de forma crítica. Seus trabalhos de 2001 e 2008, além do livro Contours of Ableism (2009), são importantes para esse debate.
Segundo a autora, o capacitismo se apoia na ideia de que haveria um corpo e um conjunto de habilidades considerados ideais, superiores e mais valiosos que outros. Essa visão influencia pensamentos e comportamentos, levando à percepção de que pessoas fora desse padrão seriam “anormais” ou “erradas”.
Segundo Campbell, o capacitismo é:
[...] uma rede de crenças, processos e práticas que cria um tipo específico de corpo e identidade — o padrão corporal —, visto como perfeito, típico da espécie e, por isso, essencial e totalmente humano. A deficiência, então, é mostrada como um estado inferior do ser humano.
Esse trecho mostra que o capacitismo leva as pessoas a considerar quem tem deficiência como “menos valioso” por causa de seu corpo, enquanto quem não tem deficiência é visto como “superior”. Trata-se de uma forma de organizar as pessoas em uma hierarquia.
Na sociedade, 'desde que uma criança nasce, ela já entra em um mundo que manda a mensagem de que ser uma pessoa com deficiência é ser inferior'
Essas ideias influenciam a forma como pessoas com deficiência constroem sua identidade. Muitas acabam buscando, de maneira exaustiva, uma “cura” ou uma “superação” para serem minimamente aceitas.
Esse processo provoca frustração e sofrimento, mesmo quando há adaptações, acompanhamento médico e tecnologias assistivas disponíveis. Ainda assim, ninguém consegue se encaixar plenamente nos padrões considerados “normais” nem viver como se a deficiência não existisse ou não influenciasse sua experiência no mundo.
Esse fenômeno é chamado de internalização do capacitismo. Ele pode gerar baixa autoestima, raiva, rejeição do próprio corpo e sofrimento psíquico, especialmente quando a pessoa passa a viver sob a expectativa constante de tratamentos, tecnologias ou avanços médicos que a aproximem de uma suposta “normalidade”.
A busca contínua por se adequar a padrões considerados “normais” também pode levar pessoas com deficiência, suas famílias e instituições a priorizar a “superação” em vez da qualidade de vida no presente. Além disso, pode incentivar a tentativa de esconder a deficiência ou de se afastar de outras pessoas com deficiência, como se o valor de alguém dependesse da distância que consegue estabelecer em relação à própria deficiência.
Com base em Campbell (2001), Wolbring (2008) afirma que o capacitismo influencia tanto a forma como uma pessoa se percebe quanto a maneira como percebe outras pessoas. Para ele, o capacitismo não se limita às relações entre pessoas com e sem deficiência; trata-se também de uma forma de interpretar, organizar e se relacionar com o mundo.
O capacitismo reflete o sentimento de certos grupos e estruturas sociais que valorizam e promovem certas habilidades, como produtividade e competitividade, em detrimento de outras, como empatia, compaixão e gentileza. Essa preferência por algumas habilidades leva a rotular desvios reais ou percebidos, ou a falta de habilidades 'essenciais', como um estado diminuído de ser, justificando outros tipos de discriminação.
Para Wolbring, o capacitismo não produz discriminação apenas entre pessoas com e sem deficiência. Ele também influencia a relação das pessoas consigo mesmas, com outras pessoas e com o mundo, contribuindo para a inferiorização de determinados grupos.
Goodley também é uma referência importante nesse debate. Em diálogo com Campbell (2009), ele afirma que a discriminação e a autodiscriminação expressam a opressão e o sofrimento vividos por pessoas que não se enquadram nos padrões de “normalidade” e capacidade.
O capacitismo parte da ideia de que algumas habilidades valem mais do que outras. Seguindo Campbell (2009), Goodley afirma que essa lógica leva muitas pessoas a tentar se encaixar, a qualquer custo, em um padrão de suposta “normalidade”, que valoriza corpos considerados “capazes”, “independentes”, “saudáveis” e “produtivos”. Como resultado, quem não se ajusta a esses padrões pode enfrentar discriminação, autodiscriminação, opressão e sofrimento.
Em outras palavras, o capacitismo é uma forma de discriminação que cria um padrão ideal de corpo e habilidades. Quem se aproxima desse modelo passa a ser visto como “superior”, enquanto pessoas com deficiência são tratadas como menos “valiosas” ou “inferiores”. Esse pensamento não afeta apenas a forma como elas são vistas pelas outras pessoas, mas também a maneira como passam a enxergar a si mesmas.
Esse padrão não surge por acaso: ele é construído socialmente a partir do que cada sociedade decide valorizar. Em contextos marcados pela produtividade e pela competição, corpos e modos de existência passam a ser avaliados pelo quanto conseguem produzir, render e se adaptar às expectativas dominantes.
Como aponta Wolbring, a sociedade tende a valorizar a competitividade e uma ideia limitada de “produtividade”, moldada por sua própria estrutura de produção e consumo. Essa lógica reforça a discriminação e cria uma hierarquia entre as pessoas, na qual quem não se encaixa no padrão dominante passa a ser visto como menos importante.
O ponto central é este: a inclusão de pessoas com deficiência e o combate ao capacitismo não devem se apoiar na ideia de “superação”, mas na valorização da diversidade humana e no respeito às diferenças. A inclusão não pode depender de condições como “se você se curar” ou “se você se esforçar”; essas exigências não devem orientar políticas públicas nem ações voltadas à inclusão.
Estudos sobre o capacitismo no Brasil
Até onde se sabe, embora não seja possível afirmar isso com certeza absoluta, a primeira tentativa de traduzir o termo ableism para o português ocorreu em Portugal, na Universidade de Coimbra, na dissertação de mestrado de Pereira (2008). A própria autora registra que, até aquele momento, ainda não havia uma tradução do termo para o português.
No Brasil, o primeiro uso acadêmico encontrado do termo capacitismo aparece em Bentes (2012). No entanto, o autor o utiliza sem apresentar uma definição. A primeira definição em português localizada na literatura acadêmica brasileira foi proposta por Dias (2013), que define o termo como:
concepção presente no social que lê as pessoas com deficiência como não iguais, menos aptas ou não capazes para gerir as próprias vidas.
Em sua dissertação de mestrado, Mello (2014) mostra como o capacitismo se concretiza nas relações sociais. Segundo a autora, ele se manifesta:
[...] através de atitudes preconceituosas que hierarquizam sujeitos em função da adequação de seus corpos a um ideal de beleza e capacidade funcional.
Ainda de acordo com Mello (2014), o capacitismo é:
[...] uma postura preconceituosa que hierarquiza as pessoas em função da adequação dos seus corpos à corponormatividade. É uma categoria que define a forma como as pessoas com deficiência são tratadas de modo generalizado como incapazes (incapazes de produzir, de trabalhar, de aprender, de amar, de cuidar, de sentir desejo, de ter relações sexuais etc.), aproximando as demandas dos movimentos de pessoas com deficiência a outras discriminações sociais, como o sexismo, o racismo e a homofobia.
Segundo Gesser, Block e Mello, o capacitismo opera a partir da oposição entre “normalidade” e “desvio”:
As capacidades normativas que sustentam o capacitismo são compulsoriamente produzidas com base nos discursos biomédicos que, sustentados pelo binarismo norma/desvio, têm levado a uma busca de todos os corpos a performá-los normativamente como 'capazes', visando se afastar do que é considerado abjeção.
Em outras palavras, o texto mostra que a sociedade constrói ideias sobre o que significa ser “normal” ou “capaz”. Essas ideias são fortemente influenciadas pela medicina, que historicamente classificou pessoas como “normais” ou “desviantes”. Com isso, cria-se uma pressão para que as pessoas pareçam “capazes” e, assim, evitem preconceito e discriminação.
Ainda nas palavras de Gesser, Block e Mello o capacitismo é:
[...] estrutural e estruturante, ou seja, ele condiciona, atravessa e constitui sujeitos, organizações e instituições, produzindo formas de se relacionar baseadas em um ideal de sujeito que é performativamente produzido pela reiteração compulsória de capacidades normativas que consideram corpos de mulheres, pessoas negras, indígenas, idosas, LGBTI e com deficiência como ontológica e materialmente deficientes.
Em outras palavras, a citação afirma que o capacitismo está profundamente enraizado na sociedade e influencia suas estruturas. Ele molda pessoas, organizações e instituições, afetando a forma como nos relacionamos. Com isso, a sociedade passa a valorizar apenas certos tipos de habilidades e trata quem foge desse padrão como menos capaz ou menos valioso, o que gera discriminação e exclusão.
O capacitismo atravessa a forma como a sociedade pensa e se organiza. Ele classifica os corpos a partir de suas habilidades, inclusive dentro de instituições e entre pessoas que dizem defender os direitos de minorias (IVANOVICH; GESSER, 2020). Essa lógica trata pessoas com deficiência como incapazes de sentir, amar, aprender, desejar e, principalmente, ser desejadas, limitando o pleno exercício de seus direitos.
A deficiência deve ser compreendida como uma das muitas formas possíveis de existir. Como afirmam Ivanovich e Gesser:
[...] é necessário quebrar com os padrões normativos de independência ligados à lógica capacitista e reconhecer que as relações de dependência e interdependência fazem parte da natureza humana.
O capacitismo da pessoa com deficiência
O episódio a seguir, envolvendo o empresário Luciano Hang e o advogado PcD Jelres Freitas, ilustra bem esse ponto: o capacitismo que uma pessoa com deficiência pode reproduzir contra outras pessoas com deficiência.
Caso Luciano Hang e Jelres Freitas
Em 2019, o empresário Luciano Hang, dono da rede Havan, causou polêmica ao gravar um vídeo contra a obrigatoriedade de instalar piso tátil e disponibilizar cadeiras de rodas motorizadas em uma loja de Chapecó (SC). Nas imagens, ele mostrava o piso tátil na entrada da unidade e dizia:
'Olha só essa loja linda, maravilhosa. Cheguei aqui na porta e colocaram isso aqui'.
Em seguida, afirmava que o piso “leva o nada ao lugar nenhum” e o chamava de “porcaria que não vale nada”.
Além disso, ele questionava a necessidade de placas que indicavam vagas reservadas para idosos e pessoas com deficiência, chamando essa exigência de “populista”. Também criticou a obrigação de disponibilizar cadeiras motorizadas para clientes com mobilidade reduzida, alegando que os funcionários poderiam auxiliá-los sem a necessidade desses equipamentos.
As falas de Luciano Hang geraram indignação em diferentes setores da sociedade. Em nota oficial de repúdio, a Organização Nacional dos Cegos do Brasil (ONCB) afirmou que “todo local privado de uso coletivo está sujeito a inúmeras regulamentações” e destacou que os direitos das pessoas com deficiência são garantidos pela Lei Brasileira de Inclusão.
É nesse contexto que aparece Jelres Freitas, advogado e, na época, presidente da Comissão dos Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB de Sumaré (SP). Pessoa com deficiência e usuário de cadeira de rodas, ele participou de um vídeo publicado nas redes sociais de Luciano Hang, aparecendo ao lado do empresário.
No vídeo, gravado durante a inauguração de uma loja em Sumaré, Jelres Freitas apoia as críticas de Hang à obrigatoriedade do piso tátil e afirma:
Existem barreiras muito piores do que a ausência de um piso tátil, que por vezes atrapalha as outras pessoas que utilizam cadeira de rodas ou muletas. Essas pessoas se sentem lesadas.
Freitas afirmou ainda que, como presidente da comissão, repudiava o que considerava “excesso de burocracia” e continuaria lutando contra a implementação dessas exigências em sua cidade. Hang agradeceu o apoio e convidou Freitas para a inauguração da nova loja.
Vídeo de Luciano Hang e Jelres Freitas
O jornalista Filipe Oliveira, que é cego, escreveu um artigo na Folha de São Paulo sobre o tema. Ele explicou que pisos táteis mal projetados ou instalados de forma inadequada, de fato, não cumprem sua função.
No entanto, o problema não está na exigência legal, mas em quem executa a instalação sem o cuidado necessário. Oliveira questionou:
Se muitos pisos táteis são inúteis ou perigosos, a culpa é de quem exige que o coloquem?
Ele também destaca que empresários deveriam encarar essas medidas como “investimento na inclusão de potenciais clientes”, e não como mera burocracia.
O caso envolvendo Luciano Hang e Jelres Freitas mostra que o capacitismo também pode aparecer nas relações entre pessoas com deficiência. Ao apoiar as críticas de Hang às medidas de acessibilidade, Freitas reproduziu um discurso capacitista que desconsidera a importância de recursos essenciais para pessoas com deficiência, neste caso, pessoas com uma deficiência diferente da dele.
Comentário da autora sobre o episódio de Luciano Hang e Jelres Freitas
Vamos entender! Primeiro, temos um empresário que, por ser rico e influente, não percebe que tá envelhecendo; é como se isso não fizesse diferença porque seus privilégios o protegem das dificuldades que as pessoas mais velhas enfrentam. Ele usa suas redes sociais de forma consciente para mostrar seu incômodo com as regras de acessibilidade que são exigidas por lei federal e pela prefeitura de Chapecó.
Ele basicamente sugere que pessoas cegas não conseguiriam chegar à loja dele sozinhas e que, se chegassem, poderiam contar com a “ajuda” dos funcionários. Isso é capacitismo? Com certeza! Como disse o jornalista Filipe Oliveira, esse empresário dá a entender que a pessoa com deficiência “não é vista como cliente em quem vale a pena investir”.
Aí entra em cena nosso “amigo” Jelres Freitas, na época presidente da Comissão dos Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB de Sumaré (SP). Ele é uma pessoa com deficiência? Sim! Usa cadeira de rodas? Sim! Tem o direito de dar sua opinião sobre o caso? Claro que tem!
Mas foi isso que ele fez? Ele se posicionou como pessoa com deficiência dando sua OPINIÃO? Não! Definitivamente, não foi isso que ele fez.
No vídeo do Luciano Hang, o Jelres usou sua posição como presidente da Comissão da OAB e o fato de ser uma pessoa com deficiência para defender o empresário. Naquele momento, ele não estava apenas dando sua opinião pessoal; ele tentou dar peso ao que o empresário dizia, como se fosse o porta-voz da comunidade de pessoas com deficiência, usando sua posição e sua deficiência como garantias de que o empresário estava certo.
Foi como se dissesse: “Eu, Jelres Freitas, presidente da Comissão dos Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB de Sumaré (SP) e pessoa com deficiência, endosso o que Luciano Hang está falando”, assumindo o papel de “embaixador”, “representante” e “porta-voz” das pessoas com deficiência.
Isso não foi apenas uma opinião pessoal; foi uma tentativa de usar sua posição para dar força a um argumento fraco, como se dissesse: “Se eu tô dizendo, então é verdade”.
Por que estou falando disso? Pra mostrar uma forma de capacitismo que, na minha opinião, quase não é discutida: o capacitismo entre as próprias pessoas com deficiência.
Pode parecer óbvio, mas não é! Pessoas com deficiência são pessoas que crescem numa sociedade capacitista, e isso afeta não só como elas se veem, mas também como enxergam outras pessoas com deficiência.
Eu sou cega e já vi muitos vídeos de pessoas influenciadoras que são cegas e que não incluem descrição de imagem, como se esses vídeos fossem voltados apenas para pessoas sem deficiência.
Uma comunidade de pessoas com deficiência muitas vezes é capacitista com outras pessoas com deficiência, porque muita gente não se preocupa em aprender sobre deficiências que não são as suas. O resultado? Pra muitas pessoas com deficiência, a luta por acessibilidade acaba sendo só pela acessibilidade que elas precisam.
Cada deficiência vira um “grupo” separado, e as pessoas se juntam com quem tem a deficiência mais “parecida” com a delas, sem perceber que ainda têm atitudes capacitistas em relação às outras deficiências.
Quantas pessoas que usam cadeira de rodas, como o Jelres Freitas, desconsideram as necessidades de pessoas com outras deficiências? Quantas pessoas cegas usam termos como “retardado” de forma pejorativa, perpetuando o capacitismo?
Pessoas com deficiência também podem ser machistas, racistas, homofóbicas e, claro, capacitistas, porque elas também são parte dessa sociedade.
As pessoas com deficiência enfrentam o capacitismo da sociedade sem deficiência e o preconceito entre as diferentes comunidades de PcDs. É como se houvesse uma “hierarquia” das deficiências, onde cada um tenta evitar ser “a pior” na escala, repetindo o mesmo preconceito que a sociedade impõe.
O problema é que os opressores são muitos (a sociedade toda, basicamente) e as pessoas com deficiência são uma minoria que ainda se fragmenta em pequenas comunidades que perpetuam o capacitismo e lutam cada uma do seu jeito. Fica muito mais difícil organizar ações coletivas e lutar por mudanças institucionais com essa divisão.
A sociedade parece muito mais unida pra oprimir do que nós, pessoas com deficiência, estamos pra lutar. Brigamos por coisas pequenas e perdemos força na luta contra quem realmente nos oprime.
Eu sou cega e, todos os dias, preciso desconstruir meus preconceitos e aprender sobre pessoas com outras deficiências, não porque sou uma pessoa “melhor”, mas porque quero um mundo menos capacitista para todas as pessoas. Não só um mundo menos capacitista para pessoas cegas.
Só vamos conseguir ter mais força e organização política quando conhecermos nossas diferenças, nos acolhermos como uma grande comunidade, e lutarmos por uma acessibilidade realmente universal, de dentro das nossas bolhas para a sociedade inteira.
Voltei a esse assunto com mais calma no texto Capacitismo entre Pessoas com Deficiência e Metacessibilidade, em que discuto a “disputa” por acessibilidade entre as próprias pessoas com deficiência.
Exemplos de capacitismo que repercutiram na mídia
O objetivo aqui é apresentar alguns exemplos de capacitismo que tiveram repercussão na mídia, mostrando que, apesar dos avanços, o debate sobre inclusão e direitos das pessoas com deficiência ainda enfrenta muitos desafios.
Caso Celso Furlan
Declarações Controversas e Repercussão Pública
Durante uma reunião com diretores escolares, Celso Furlan afirmou que pessoas com deficiência “não têm condição de aprender”. Ele também disse que mães “querem se livrar” dos filhos com deficiência ao colocá-los na escola. A reunião foi gravada, e o áudio vazou nas redes sociais, gerando forte repercussão pública.
Trechos das Falas de Furlan
Ação da Prefeitura e defesa de Celso Furlan
Após a repercussão, a Prefeitura de Barueri exonerou Celso Furlan do cargo de secretário da Educação. Em nota oficial, a administração lamentou o ocorrido e reafirmou o compromisso com uma política ética e inclusiva voltada às pessoas com deficiência, seus familiares e cuidadores.
Já o ex-secretário afirmou que a gravação havia sido retirada de contexto e que se tratava de uma reunião de trabalho sobre inclusão escolar. Ele disse reconhecer a importância de uma comunicação respeitosa, negou a intenção de desrespeitar ou constranger e declarou compromisso com uma educação justa, humanizada e orientada pela diversidade e pela dignidade das pessoas com deficiência.
Comentário da autora
Eu não conseguiria descrever melhor o que é capacitismo, em toda sua materialidade, do que as falas do ex-secretário Celso Furlan. Vamos imaginar que tudo isso seja, supostamente, verdade.
Temos aqui um ex-secretário municipal, uma figura de liderança em uma das áreas mais fundamentais da sociedade, que deveria representar a população como um todo, e que deveria ser defensor dos direitos constitucionais de todas as pessoas, especialmente das mais vulnerabilizadas.
O que deveria ser óbvio, mas que muita gente parece não compreender, é que capacitismo é crime. Discriminar uma pessoa com deficiência é crime. Subestimar sua capacidade, negar seu direito à educação, à convivência e à cidadania plena é crime.
E quando essa atitude parte de uma autoridade pública, trata-se de uma violação ainda mais grave, pois essa pessoa ocupa uma função financiada com o dinheiro público. Isso significa que ele exercia uma função pública paga com o dinheiro de TODAS as pessoas, inclusive pessoas com deficiência, suas famílias, cuidadores e todos os cidadãos que acreditam em um país mais justo.
O dinheiro dos impostos não é seletivo. Ele não vale mais quando quem paga é alguém sem deficiência. Ele não é devolvido quando quem sofre discriminação é quem pagou a conta.
Caso vereadora Lourdes Sprenger
A vereadora de Porto Alegre Maria de Lourdes dos Santos Sprenger (MDB) tornou-se ré na Justiça do Rio Grande do Sul após a Justiça aceitar, em 15 de abril de 2024, uma denúncia apresentada pelo Ministério Público. Ela foi acusada de injúria racial e de discriminação contra um servidor público negro da Câmara de Vereadores e contra três estagiárias com deficiência.
Segundo a acusação, a vereadora teria proferido ofensas racistas e manifestações de intolerância religiosa contra o servidor, além de falas discriminatórias contra as estagiárias. Entre as declarações atribuídas a ela, estão a expressão “professor preto, sujo e burro”, referências à religião de matriz africana do servidor e ataques às estagiárias, chamadas de “debilóides” e descritas como pessoas sem condições de exercer suas funções.
De acordo com a investigação da Polícia Civil, o conflito teria começado porque Lourdes Sprenger considerava as estagiárias inaptas para o trabalho, enquanto o chefe delas defendia sua permanência nos cargos. O servidor público acabou exonerado em outubro de 2023 por determinação da vereadora.
As situações de injúria racial e discriminação, segundo a denúncia, teriam se repetido ao longo daquele ano.
Em sua defesa, Lourdes Sprenger nega as acusações e afirma que não há provas contra ela, classificando as denúncias como “disse-me-disse”. A vereadora também sustenta que as acusações partiram de pessoas que ela havia exonerado por divergências administrativas.
Lourdes Sprenger está em seu terceiro mandato como vereadora e foi eleita com a bandeira da causa animal. Natural de Gravataí, é contadora e trabalhou como auditora em uma estatal.
Comentário da autora
O que este caso mostra, em tese?
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Uma vereadora que, supostamente, teria tratado três estagiárias com deficiência como pessoas “incapazes” para o trabalho, sustentando essa visão discriminatória por cerca de um ano e chegando a chamá-las (supostamente) de “debilóides”.
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A mesma vereadora, também segundo a acusação, teria chamado um servidor de “professor preto, sujo e burro” e feito comentários sobre sua religião de matriz africana. Isso teria ocorrido porque ele discordou dela e defendeu que as estagiárias permanecessem em seus postos.
Se esses fatos forem confirmados, trata-se de uma vereadora (ou seja, uma agente pública) que deveria representar toda a população, defender a Constituição e proteger os direitos de todas as pessoas, sem selecionar quem merece respeito, acesso ou dignidade sendo capacitista e racista.
Esse ponto é central porque o cargo público não pertence à pessoa eleita, mas à sociedade que a financiou e legitimou por meio do voto e dos impostos. Portanto, qualquer prática discriminatória cometida por uma autoridade pública não atinge apenas as vítimas diretas: ela fere também o pacto democrático que sustenta a própria função pública.
É importante lembrar que os impostos são pagos por toda a sociedade: pessoas pretas, pessoas com deficiência, praticantes de religiões de matriz africana, pessoas LGBTQIA+, pessoas idosas, pessoas pobres e cidadãos de diferentes realidades sociais. O dinheiro público não escolhe quem contribui nem retorna à população quando agentes do Estado ou seus representantes praticam discriminação.
Por isso, quando uma autoridade pública discrimina qualquer grupo, ela atinge os próprios cidadãos que financiam seu cargo. No caso de uma vereadora, além dos impostos que pagam seu salário, também existem recursos eleitorais, igualmente financiados pelos tributos da população.
Portanto, não se trata de “caridade”, “favor” ou “bondade” de uma vereadora, nem de qualquer outra autoridade pública. Trata-se de obrigação.
O Estado é financiado para proteger direitos e garantir que todas as pessoas tenham acesso aos serviços públicos. Quando isso não acontece, há uma grave quebra da confiança social e do uso adequado dos recursos públicos.
Como contribuinte, pago governantes para criar leis e fiscalizar sua aplicação. Também pago para que garantam uma estrutura social que combata a discriminação, promova igualdade de oportunidades, inclusão e diversidade.
Essa estrutura deveria oferecer serviços públicos de qualidade e acessíveis em áreas como saúde, educação, transporte, moradia, trabalho, lazer, cultura, segurança, assistência social e previdência. No entanto, muitas vezes recebemos o contrário: uma estrutura precária, negligente, excludente, violenta e corrupta. Além disso, ela ainda transfere à população a culpa por problemas que deveria resolver.
A vereadora Lourdes Sprenger, supostamente, não teria apenas falhado em seu dever de representar a população; também teria desrespeitado a lei, que é objetiva: discriminação é crime. Se isso ainda não está claro, cabe à Justiça esclarecer e tomar as medidas cabíveis.
A questão não envolve “humanidade”, “boa vontade” ou “caridade”, mas o cumprimento da lei. Ela é paga para respeitá-la.
Alguns governantes tratam o povo como subordinado, colocam-se acima da população e agem como se fossem donos do poder. Parecem acreditar que podem decidir quem terá acesso a direitos, serviços e dignidade.
Na verdade, são pessoas eleitas para cumprir uma função pública. Quando descumprem seus deveres, usam a estrutura do Estado em benefício próprio, discriminam, excluem, violam direitos humanos ou cometem crimes, devem ser responsabilizadas e punidas.
Afinal, ao agir dessa forma, prejudicam a sociedade e afrontam diretamente a lei.
Caso João: menino com deficiência deixado na escola enquanto colegas foram ao cinema
João, um menino que na época tinha 9 anos de idade, é uma pessoa com paralisia cerebral. Ele foi deixado na escola enquanto seus colegas foram ao cinema.
Segundo sua mãe, Adriane Cruz, a escola justificou a decisão dizendo que ele não gostaria do passeio, mesmo depois de ela afirmar que João gostava desse tipo de atividade e poderia participar. De acordo com o relato, João permaneceu circulando pelos corredores da escola das 7h às 11h20 da manhã, acompanhado por seu cuidador.
A mãe só descobriu que ele não participou do passeio quando foi informada por uma responsável pelo transporte escolar.
Após a repercussão do caso no Facebook, onde o relato teve mais de 3 mil compartilhamentos, a Secretaria de Educação de Belo Horizonte se reuniu com a escola e pediu desculpas. A pasta afirmou que o ocorrido não reflete a política de inclusão da rede municipal e destacou que todas as escolas são orientadas a garantir a participação de estudantes com deficiência.
Adriane também relatou que, desde que João passou a estudar na atual escola, ele não foi convidado para eventos, incluindo a festa junina. Segundo ela, a exclusão foi justificada com argumentos como “está frio”, “ele grita” e “não sabem qual será a reação dele”.
Presidente da Associação Mães que Informam (AMI), Adriane afirma que situações de exclusão escolar não são pontuais, mas constantes e diárias. Para ela, o problema está na falta de capacitação adequada dos profissionais da educação para lidar com estudantes com deficiência.
Comentário da autora
E se eu disser que ainda existem professores, gestores e outros profissionais da escola que consideram o que aconteceu nesse caso algo “normal” ou até correto? Já passei por situações parecidas tantas vezes que poderia escrever um artigo inteiro só sobre elas. Vou contar uma.
Em 2006, quando eu tinha cerca de 10 ou 11 anos, cursava o 6º ano, antiga 5ª série, em Barreiras, Bahia, minha cidade natal. Eu estudava no Centro Educacional Sagrado Coração de Jesus, uma escola municipal de que eu não gostava. Era meu primeiro ano ali e, quando chegou o período do Sete de Setembro, com os desfiles na avenida principal da cidade, uma professora veio falar comigo.
Ela disse que eu não desfilaria com a turma. Mesmo criança, perguntei o motivo, e ela respondeu que “não dava”, porque eu não conseguia andar em linha reta e “costurava a rua”.
Na minha família, havia várias professoras e policiais militares que participavam dos desfiles, enquanto o restante da família ia assistir. Para nós, aquilo era um acontecimento importante.
Contei à minha tia que não desfilaria, já quase conformada, e ela perguntou o motivo. Repeti, com ingenuidade, o que a professora havia dito. A casa virou um tribunal: minhas tias começaram a discutir, algumas concordando com a professora e outras discordando. Minha tia e meus avós ficaram indignados.
No dia seguinte, a pedido dos meus avós, minha mãe foi à escola conversar com a coordenadora e a diretora. Elas disseram que discordavam da professora, mas queriam ouvir sua versão, então a chamaram à direção.
A professora repetiu tudo o que havia me dito e ainda completou: “Mãe, ela precisa entender que não é normal…”. Falou isso com naturalidade, como se estivesse pedindo açúcar para o café.
Minha mãe foi para cima da professora para bater nela, mas foi contida pela diretora e pela coordenadora. Depois de muita discussão, chegaram a um acordo: eu desfilaria, desde que minha mãe me acompanhasse.
E assim aconteceu. Tudo isso por uma caminhada pela avenida, sob o sol quente do Sete de Setembro, algo que muitos estudantes fazem por obrigação para ganhar nota.
Esse foi apenas um episódio. Perdi a conta de quantas feiras do livro, feiras de ciência e gincanas deixei de participar.
Em muitos desses dias, eu era simplesmente “dispensada” das aulas e ficava em casa, assistindo novela, enquanto os outros alunos participavam das atividades. Eu até lembro as novelas que assistia, “A usurpadora”, “Maria do Bairro” e por aí vai.
Assim como aconteceu comigo, a história de João, um menino de 9 anos com paralisia cerebral que ficou na escola enquanto os colegas foram ao passeio, revela como a sociedade e as instituições ainda falham em reconhecer a humanidade das pessoas com deficiência.
As escolas públicas enfrentam muitos desafios, mas o caso de João mostra que as falhas do sistema recaem com ainda mais força sobre pessoas com deficiência. Enquanto estudantes sem deficiência costumam ser pressionados com frases como “você precisa estudar” ou “vai virar vagabundo”, estudantes com deficiência muitas vezes são tratados de outra forma.
Acabamos excluídos das atividades sob justificativas como “não temos formação”, “faltam recursos” ou “ele não pode participar”. Esse tratamento desigual mostra a ausência de compromisso real com a inclusão e revela uma prática contínua de negligência e discriminação.
Essa lógica acaba reforçando a defesa forçada das chamadas “escolas especiais”, como se elas fossem a solução para o problema. Na prática, muitas vezes esse discurso serve para que educadores evitem se atualizar e enfrentar, de fato, os desafios da inclusão.
Talvez o aspecto mais doloroso seja a desumanização das pessoas com deficiência. A escola não enxergou João como um menino de 9 anos que queria ir ao cinema e se divertir com os colegas, mas como um problema a ser evitado.
Essa desumanização também é violência. Ela não se explica apenas pela falta de formação ou de recursos; revela a incapacidade de reconhecer pessoas com deficiência como seres humanos.
Somos transformados em “coisas”, “situações” ou “problemas a serem evitados”, sempre com o cuidado de “não chamar atenção” e “não gerar polêmica”. Somos tratados como objetos, enquanto nossas famílias são colocadas no papel de plateia de um teatro montado para justificar a exclusão.
Incluir não é apenas cumprir uma exigência legal. É reconhecer a dignidade de todas as pessoas, é lembrar que antes da deficiência existe alguém uma pessoa.
O que aconteceu com João não se resolve apenas com treinamentos ou regras. É necessária uma mudança profunda na forma como a sociedade vê as pessoas com deficiência, garantindo que sejam respeitadas, acolhidas e tenham participação plena.
Considerações finais
O capacitismo é uma forma de discriminação que atinge diretamente pessoas com deficiência e, apesar de muito presente na sociedade, ainda é pouco reconhecido. Este artigo discutiu o capacitismo em sua complexidade, mostrando como ele está ligado a ideias históricas de inferioridade e a estereótipos que continuam sendo reproduzidos.
Ao tratar a deficiência como algo a ser corrigido ou superado, o capacitismo desumaniza, exclui e cria barreiras que vão além da acessibilidade física. Essas barreiras acabam afetando a autoestima, as oportunidades e o direito de existir plenamente como parte da diversidade humana.
A análise também mostra que o capacitismo não acontece de forma isolada. Ele se relaciona com outras formas de opressão, como racismo, machismo e eugenia, todas sustentadas pela ideia falsa de que alguns corpos e capacidades valem mais do que outros.
Quando todo preconceito é tratado apenas como “discriminação”, as particularidades do capacitismo se perdem, o que dificulta seu enfrentamento. Por isso, nomeá-lo e compreender suas raízes é fundamental para criar políticas e ações realmente comprometidas com inclusão e respeito.
O capacitismo aparece tanto em atitudes cotidianas de exclusão quanto em políticas e práticas institucionais, que mantêm pessoas com deficiência à margem. Enfrentá-lo exige mais do que punição legal: exige transformação cultural e educacional.
Isso significa questionar discursos que normalizam a exclusão, denunciar pautas eugenistas atuais e defender uma educação inclusiva. Reconhecer o capacitismo como uma discriminação específica, e grave, é um passo essencial para mudar atitudes e construir uma sociedade mais justa.
Reconhecer os preconceitos que sustentam o capacitismo é essencial para entender a deficiência como parte da diversidade humana, e não como algo a ser corrigido.
Para enfrentar esse problema, não basta admitir que ele existe; é preciso promover mudanças concretas na forma como a sociedade trata pessoas com deficiência, garantindo inclusão real, respeito, dignidade e valorização da diversidade.
Referências
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Comentário da autora
A seguir, abordarei um tema pouco discutido, mas essencial para compreender o capacitismo: sua reprodução por pessoas com deficiência. Como também vivemos em uma sociedade capacitista, podemos reproduzir discursos e práticas capacitistas contra outras pessoas com deficiência, sejam elas semelhantes ou diferentes das nossas. Não me refiro aqui ao capacitismo internalizado, voltado contra a própria pessoa, mas ao capacitismo que aparece nas relações entre pessoas com deficiência. O objetivo não é culpar individualmente quem reproduz essas práticas, e sim reconhecer que o capacitismo também atravessa nossas comunidades e precisa ser enfrentado. Negar essa possibilidade simplifica as relações sociais e apaga a influência do capacitismo em nossas vidas. Também seria negar que pessoas com deficiência são seres humanos, com contradições, conflitos, lutas e experiências próprias. Ter uma deficiência não nos impede de reproduzir capacitismo; pelo contrário, exige que reconheçamos essas práticas e as enfrentemos.